sexta-feira, 13 de maio de 2011

O início de tudo

 

Quando resolvi me inscrever no curso de Competência Mínima de Condutores de Turismo de Aventura, em Cambará do Sul, pensei que seria uma boa oportunidade para melhorar os meus conhecimentos sobre os cânions, mas nunca imaginei que pudesse se tornar uma grande experiência. Foi um curso intenso, cheio de aprendizado, por vezes exaustivo, conflitante e, sobretudo, desafiador.

As Leis de Daiana


Conforme eu experimento a vida, vou criando teses e defendendo leis que deveriam existir. Para mim todo mundo deveria, ao menos uma vez na vida:

1.     Morar sozinho;
2.     Trabalhar;
3.     Pagar as próprias contas;
4.     Fazer a Trilha do Rio do Boi; e
5.     Fazer o curso de Competência Mínima de Condutores de Turismo de Aventura.

A última lei foi criada, obviamente, depois que eu realizei o curso.

Preparação para o grande dia


Nos dois primeiros dias, eu e mais 20 amigos de Cambará do Sul, Canela, Caxias do Sul e Praia Grande (SC) mergulhamos fundo em conteúdos diversos, como fauna, flora, geologia, comportamento, turismo, aventura, cânions, orientação com bússola, direitos, deveres, liderança, tomada de decisão, boas práticas para preservar a natureza e etc.

Aulas aconteceram nos três turnos: manhã, tarde e noite. Quase uma imersão.  O ápice dessa experiência foi a expedição ao Cânion Malacara, no Parque Nacional da Serra Geral, em Cambará do Sul. 

Antes disso, fomos divididos em seis grupos: Alimentação, Cozinha, RAME / PAE (responsável pela segurança e primeiros socorros), Limpeza, Registros e Equipamentos. A missão das equipes era organizar e comandar a expedição. Eu, o Dedé e a Seloir ficamos na equipe de Registros. Uma barbadinha!!!

Com uma autorização especial da direção dos Parques Nacionais nosso grupo pode desbravar os caminhos das gigantescas fendas existentes entre os cânions Itaimbezinho e Fortaleza. Com um detalhe: Acampamos num dos lugares mais lindos que já conheci, o Cânion Malacara.

Rota da expedição

Marcelo, isso seria medo de se perder? rsssss
 

Guarita do Cânion Itaimbezinho até o Cânion Malacara: 6 km*
Cânion Malacara até o Cânion Fortaleza: 12 km*
(*) Teria sido se soubéssemos o caminho certo (rsssss).

Preparando o mochilão


Que roupa levar? O que levar? Essas perguntas nunca foram tão fáceis de serem respondidas. Foi só lembrar que eu teria que caminhar 18 quilômetros carregando uma mochila pesada que eu consegui definir rapidinho o que levaria. Foi a menor bagagem de todas que já fiz.

Iniciando a Expedição


O ponto de partida da nossa aventura foi a guarita Gralha Azul, do Parque Nacional de Aparados da Serra, a entrada para o Cânion Itaimbezinho. Nesse ponto tínhamos em mãos bússola, carta cartográfica da região, pontos marcados e a missão de chegar ao local do acampamento. Detalhe: Sem o auxílio dos instrutores ou de condutores de turismo.

Saímos da entrada do Itaimbezinho rumo ao Cânion Malacara, local do nosso acampamento. Esse caminho está desativado e recebemos uma autorização especial para percorrê-lo. Atualmente, para ir ao Malacara, os condutores locais guiam os turistas pelo caminho via Cânion Fortaleza.

Segui a dica de alguns entendidos e “colei” nos navegadores, as pessoas que puxavam todo o grupo. Dessa forma eu não corria o risco de ficar para trás. Nossa caminhada começou por volta das 14h. Passamos por estradas secundárias, de fazendas ainda existentes na região, contornamos matas e atravessamos pequenos rios.

 



Caminho errado?


Quando o dia começou a cair eu escutei os primeiros burburinhos sobre a possibilidade de estarmos no caminho errado. E eu me perguntava: Mas, que caminho? Estávamos andando com bússolas e com coordenadas geográficas. Uma hora teríamos que chegar ao local proposto. Mesmo que isso significasse caminhar mais e por terrenos íngremes e pedregosos.





Noite, nevoeiro e chuva


A noite chegou. Tínhamos a bússola para nos orientar e pequenas lanternas para iluminar o caminho. Em seguida fomos surpreendidos pelo nevoeiro típico da região e depois por uma chuva fininha, daquelas de molhar bobo. Eu estava cansada e a mochila parecia pesar cada vez mais. Às vezes eu olhava para trás e enxergava aquela fila imensa com luzinhas andando na escuridão. As paisagens tão lindas, que nos acompanharam até então, não eram mais vistas. Tudo estava tomado pela escuridão e pela névoa. Um bom cenário para filmes de terror.

Caminhando no banhado


Tinha gente preocupada, mas eu estava tranqüila. Pensava que o máximo que poderia acontecer é não chegarmos ao ponto do acampamento. Aí teríamos que montar as barracas em outro ponto. A chuva apertou e a caminhada também. Mais adiante eu senti na pele a verdade sobre a “aquela” máxima: Quando as coisas estão muito ruins elas podem ficar ainda piores (conhece?). Com a escuridão e sem muita alternativa tivemos que atravessar um banhado cheinho de água e barro.

Enquanto eu caminhava com dificuldade dentro desse tal banhado ficava me perguntava quantos bichos estranhos e nojentos poderiam existir ali. O mais incrível é que eu não estava preocupada com tudo aquilo. Cheguei à conclusão que era devido ao cansaço.

No meio dessa filosofia toda eu também enxergava vegetações bem esquisitas e evitava pisá-las. Pareciam formigueiros boiando na água. Foi quando de repente um dos nossos instrutores passou como uma ventania por nós e tomou a frente do grupo. Quando isso acontece pode ter certeza que há problemas.

Descubro, então, que o instrutor estava tomando o comando por causa das tais vegetações esquisitas. Eram na verdade turfeiras, ótimas vegetações para afundar pernas e o que mais inventasse de passar por cima delas. Uma espécie de areia movediça.

Andamos um tempão dentro do tal banhado. E eu tentava me concentrar para não deixar as botas lá dentro. De vez em quando também ria sozinha lembrando que horas antes havia atravessado um rio de pés descalços porque não queria molhar as meias e as botas. Santa ingenuidade...

Terra firme


Encontramos terra firme. Abaixo de chuva, os colegas responsáveis pela navegação recalculavam os pontos na carta cartográfica. O resto do grupo ficava em silêncio. Desliguei a minha lanterna e fiquei observando aquela situação. Parecia algo surreal. A chuva batia no meu rosto e eu sentia que o meu agasalho, que deveria ser impermeável, já tinha deixado a água chegar no meu corpo. Eu estava gelada, com frio, com fome, doida para sentar num banquinho, mas feliz por estar vivendo aquele momento.

Missão cumprida


A carta cartográfica da equipe de navegação estava se desmanchando por causa da chuva, mas estávamos todos ali, ao redor, acreditando e torcendo para que o caminho fosse encontrado o mais rápido possível. E foi o que aconteceu. As bússolas foram reposicionadas e lá fomos nós. Conforme íamos caminhando o som do rio Malacara ia se aproximando. Era a certeza de que estávamos no local certo. Encontrar o rio foi como descobrir um tesouro. Atravessamos suas águas e logo encontramos o ponto marcado do acampamento. A primeira missão estava cumprida.

Montando o acampamento


A tarefa seguinte era armar o acampamento e providenciar o jantar. Hoje em dia, com barracas mais modernas, é fácil montá-las, mas quando é preciso fazer isso no escuro, com cansaço e com garoa fica bem complicado. Eu e a Seloir ganhamos um lugarzinho na barraca da Natiele. Segunda a proprietária, trata-se de uma barraca mega especial porque possui três proteções contra frio, água e bichos. Um salve para as três proteções. Lembrarei disso quando for comprar a minha barraca.

Medo do frio


Com a nossa “mansão” organizada era hora de trocar de roupa porque da cintura para baixo eu estava toda molhada e da cintura para cima toda úmida. Tomei um banho de lencinhos umedecidos e coloquei roupas e calçados secos. Como eu tinha ido preparada com blusas térmicas não senti frio, mas teve gente, como a colega Natiele (abaixo), que colocou tantas roupas e tantas meias que mal conseguiu se mexer.


Arroz com galinha


Dizem que o melhor tempero de uma comida é a fome. Eu diria que também pode ser o cansaço. O cardápio do jantar foi arroz com galinha. O melhor prato das nossas vidas. Uma delícia!

Hora de ir ao "banheiro"


A preocupação da maioria das pessoas era se iriam passar frio, como seria a noite numa barraca e em sacos de dormir. Já a minha preocupação era ir ao “banheiro”. Para os meninos a situação é fácil de ser resolvida, mas para as meninas é difícil. Eu tinha planos de não beber água para não ter que ir ao “banheiro”, mas é claro que eu não consegui esse feito. Pois bem, acompanhada de amigas da expedição resolvi acabar com aquele “sufoco”. Correu tudo bem e eu superei o desafio de fazer o número 1 no “banheiro” do Malacara. Já o número 2... Esse teve que ficar para uma próxima expedição.

Hora de dormir


Eu achava que no momento que entrasse na barraca iria cair num sono pesadíssimo, mas não foi o que aconteceu. Demorei muito para dormir. Escutei histórias arrepiantes dos vizinhos da barraca ao lado; dei muita risada do medo que a Natiele estava sentindo ao escutar as lendas; e fiquei intrigada com os gritos que vinham da mata. Pareciam ser gritos de uma mulher sendo atacada, mas me disseram que eram “barulhos” de um graxaim. Será? Mistérios de acampamento.

Amanhecendo no Cânion Malacara


Acordei com o despertador do celular de um dos guris de Caxias, que estavam na barraca ao lado. Fiz uma preguiça e levantei. Horário: 5h30 (da manhã!). Motivo: Ver o dia nascer no Cânion Malacara. Saí do saco de dormir toda quentinha. No lado de fora da barraca fazia muito frio. Eu poderia dormir até mais tarde em muitos outros dias da minha vida, mas ver o nascer do sol no Malacara era uma oportunidade imperdível. Coloquei o único par de tênis seco que eu tinha e saí toda amarrotada. Antes de chegar à borda do Malacara me atolei “trocentas” mil vezes.

Os meus olhos ainda estavam em processo de abrir, mas eu já estava encantada com a imensidão do Malacara. Poucas pessoas conseguiram vencer o frio e a barraca quentinha para  ver o dia amanhecer e quem foi jamais se esquecerá. Que momento! Eu ainda sentia dores nos pés, nas pernas, ou melhor, em todo o corpo. Porém, estar ali, vendo o dia nascer, naquele cenário, fazia qualquer sacrifício ou dor ter valido a pena. Depois que o sol nasceu é que pude ver toda a beleza do lugar que rodeava o nosso acampamento. Paisagens encantadoras e mágicas.















Desmontando o acampamento


Essa parte foi bem ruim. Desmontar o acampamento significava que iríamos embora daquele paraíso e enfrentaríamos uma nova empreitada de muita caminhada. Tudo que tínhamos levado tinha que voltar, incluindo o lixo. Leia-se lixo de todos os gêneros. Ok?! Por ser uma Unidade de Conservação tomamos todos os cuidados necessários para causar o mínimo de impacto possível à natureza. A mochila novamente se inseriu ao meu corpo e pedi mais força ao Pai Celestial para carregá-la com pelo menos um pouco de bom humor. 

Café da manhã comandado pela Iara

Acampamento desfeito

Dia 2


No segundo dia de expedição o plano era deixar o acampamento e chegar a um ponto no Cânion Fortaleza onde seríamos “resgatados”. Na programação deveríamos chegar ao destino por volta das 18h. Antes da partida foi escolhida uma nova equipe de navegação e lá fomos nós disparando do nevoeiro e seguindo as orientações das bússolas e das paisagens. Deixamos o local do acampamento por volta do meio-dia e marcamos para almoçar num lugar bem especial: no Cânion Churriado. 

Rumo ao Cânion Churriado


Caminhamos, tivemos sérias divergências durante o percurso com direito a gritaria no meio do mato (acontece nas melhores famílias), escolhemos caminhos errados e encontramos o caminho certo. Resumidamente foi assim o percurso até chegar ao nosso belo "restaurante": o Cânion Churriado. Para mim foi o local mais lindo da expedição. Curti o lugar menos do que gostaria porque precisei me concentrar na parte da navegação, mas nos momentos que pude não cansei de admirar aquela imensidão. Por alguns minutos  consegui ficar deitada no campo observando o Churriado com suas formas, fendas... Como pode existir algo tão exuberante?



Rumo ao Cânion Fortaleza

Ao deixar o Churriado machuquei um dos meus joelhos. Parecia que não conseguiria caminhar, mas pedi um pouco mais de força ao nosso amigo aquele lá de cima. Nosso grupo precisava caminhar mais rápido porque pegaríamos a noite novamente.

Tentei esconder o que sentia para não preocupar o pessoal, mas todos estavam muito atentos. Com a torção tive algumas regalias, como remédio, um bastão de caminhada, uma lanterna de cabeça e paparicos. A melhor parte é que o Catarina, o colega de Praia Grande (SC), retirou várias coisas da minha mochila para aliviar o peso.

Mais adiante o grupo achou por bem acionar o condutor Dedé, que também era nosso colega no curso. Estávamos bem atrasados e a missão dele foi nos tirar o mais rápido possível do local. Eu estava tão cansada e sentindo tanta dor, que durante o comando do Dedé fiz várias ofertas a ele. Eu queria ficar no caminho e ele ir me buscar no dia seguinte. Ele não quis!!!

Já era noite e estávamos andando à beira dos paredões. Numa das paradas de descanso deitei e por alguns segundos fiquei adormecida. Escutava ao longe as conversas e os sons da natureza. Nessa hora eu já estava com o outro joelho machucado e também com raiva do mundo. Dor é uma coisa que me irrita muito.

O colega Augusto me emprestou uma joelheira para facilitar a minha caminhada, mas eu queria  mesmo é ter ficado naquele lugar, deitada, sem banho e sem comida. Só queria dormir.

Como o Dedé não aceitou as minhas propostas tive que levantar, colocar novamente a mochila nas costas e continuar o que eu chamava no momento de martírio. Aquela caminhada parecia não ter fim.

A chegada


Nem acreditei quando escutei o barulho do ônibus. Eu quis ir voando. Quando chegamos na estrada do Cânion Fortaleza foi uma alegria só. O nosso resgate estava lá. Tirei a mochila e sentei num barranco. Algumas pessoas faziam fotos, outras fumavam e eu só conseguia agradecer a Deus por ter me dado tanta força. Como último pedido queria um banho quente e uma cama de verdade. Ah! E pedi também a oportunidade de poder fazer um número 2 num banheiro de verdade. Nada como enfrentar obstáculos e dificuldades para se valorizar as pequenas coisas.

Jamais vou esquecer


  • A importância de se respeitar e cuidar cada vez mais a natureza;
  • A garra das seis mulheres participantes;
  • A solidariedade do grupo;
  • Os ensinamentos dos “mestres” Josemar Contesini, Alexandre Fiorin, Estéfano Pereira, Andrews Mohr e Marcelo Klippel;
  • A equipe de navegação discutindo a relação atrás do capão;
  • Os deliciosos pastéis da Lucinha (Cânion Turismo); e
  • A demonstração do instrutor Josemar sobre como devemos ir a banheiros naturais.

Observações tri importantes

 

  • O curso foi promovido pela Nativa Consultoria e Assessoria de 25 a 29 de abril de 2011, em Cambará do Sul.
  • O "grand finale" do curso aconteceu no dia seguinte à expedição, no dia 29 de abril, com um “passeio” nas tradicionais trilhas do Cânion Itaimbezinho e um jantar delicioso preparado pela Érika e pelo Augusto no restaurante da Vila Ecológica.
 E aí, quando será a próxima expedição?